sábado, 11 de julho de 2009
De duas árvores
Lado a lado
De ramos entrelaçados
Assim plantados
Por obra do acaso,
Viverão nossos espíritos,
Depois de nós.
Imóveis e persistentes
Seus seres gémeos,
Amando e protegendo
De copas largas,
Num frondoso encontro,
Mais que fotossíntese,
Pleno de luz e abrigo
Á vida que somente é...
As duas crianças que somos,
Brincaram aos xamãs
E descobertas lusas
Perto de um riacho celta,
Á nossa sombra...
Álvaro Guilherme
05 Junho 2009
sexta-feira, 10 de julho de 2009
Caminho de S. Tiago

O peregrino do tempo
Palmilharia a terra
Por eras e vidas
Para te encontrar...
Parece-me agora
Não ter tempo,
Neste caminho
Que segue para terras
Eternas...não há tempo.
Parecem maiores
Os meus dias
E breves as noites,
Pelas longas horas
Sozinho
Com o meu povo.
Mas o tempo dos homens
Só é fiel a si mesmo
7/8 do 7 2009
Álvaro Guilherme
Metamorfose
quinta-feira, 9 de julho de 2009

Descansa o meu olhar num bucólico sentimento
Da paisagem que adormece pelos céus em movimento,
É o resto de qualquer coisa que chega ao fim por um instante
De tempo, em que o ser entorpecido, quer guardar como um amante.
Repousa a minha alma no momento pelo seu preenchimento
Ao contemplar tal maravilha que acontece sempre por dentro
Quando o ser a divagar busca ao redor algo diferente
E o tempo quer parar para abrandar a minha mente.
Deitado nessa calma e embalado pelo vento
Dou por mim agradecido pelo amor que me é dado
E deixo o fado para trás e abraço o contentamento.
Já não está lá o que esteve, nem sei se estará o que há-de estar,
Mas a semente persistente permanece vibrante e constante,
Em momentos que o tempo tem por capricho e avante segue adiante.
23 Abril 2008
Álvaro Guilherme
terça-feira, 7 de julho de 2009
DECLARAÇÃO UNIVERSAL DOS DIREITOS DO HOMEM (O.N.U.)

Logo no Artigo nº1 que passo a transcrever: Todos os seres humanos nascem livres e iguais em direitos. Dotados de razão e de consciência, devem agir uns para com os outros em espírito de fraternidade, torna-se evidente que as disparidades sociais de nação para nação, são por exemplo, muito condicionadas pelos valores religiosos, interesses económicos, políticos, etc.
Na realidade as diferenças de cultura e de educação são abismais entre os países chamados desenvolvidos e países de terceiro mundo. A verdade é que os desperdícios alimentares do ocidente (diários!), suprimiam a fome em Africa. A poluição ambiental exercida sobre o planeta tem efeitos devastadores para todos, isto é, para os que lucram economicamente com as industrias e tecnologias poluentes e para a grande maioria dos cidadãos, que com isso apenas ganha emprego por questões de sobrevivência, muitas vezes levando uma vida perfeitamente insatisfatória e muito pouco saudável.
Dotados de razão e consciência, devem agir uns para com os outros com espírito de fraternidade. Bonitas palavras, sem dúvida, mas a realidade é bem mais cruel. Quando assistimos em directo pelos meios de comunicação a guerras umas a seguir às outras e vemos com olhos de distância o sofrimento de inocentes, sendo bombardeados pelos que fazem a guerra em nome da paz. Guerras religiosas santas, politicas, económicas, territoriais, ou apenas por afirmação de supremacia, são toda uma só grande guerra que move uma indústria de armamento. Esta devora milhões e milhões de euros/dólares e mata mais inocentes do que aqueles que realmente são o alvo. Além disso estas verbas sendo investidas, por exemplo em investigação cientifica, para a descoberta de curas para as doenças e epidemias que assolam a humanidade, ou para vacinação e primeiras necessidades dos habitantes de países subdesenvolvidos, resolveriam parcialmente o problema.
De facto, saúde, alimentação higiene, habitação, educação e trabalho são os alicerces da dignidade humana. O direito de um ser humano se sentir igual ao demais é uma dádiva da criação que o homem não aprendeu a respeitar e por isso se assiste a uma competitividade doentia na nossa sociedade, pelos mais diversos aspectos. As pessoas atropelam-se umas às outras, agindo quase inconscientemente e demonstrando uma irracionalidade que faz equacionar o quão evoluída está a raça humana.
Ao discorrer sobre todos os direitos do homem, sente-se um nó no estômago por todos aqueles que neste preciso momento sofrem as atrocidades mais barbaras, exercidas por minorias que detêm o poder e esmagam literalmente maiorias indefesas e que se vem obrigadas a abandonar as suas terras natal por motivos de perigo eminente de vida, muitas vezes, depois de terem assistido ao assassinato de entes queridos “Todo o individuo tem direito à vida, à liberdade pessoal e á segurança pessoal” isto é paradoxalmente irónico e até mesmo bizarro perante a triste realidade de grandes massas humanas que sofrem.
“Ninguém será mantido em escravatura ou servidão…” a verdade é que em pleno século XXI, ainda há literalmente escravatura, veja-se o exemplo do trabalho infantil, ou das crianças que se vêm obrigadas a mendigar para sustentar a pobreza da família, etc. A maioria das pessoas no nosso pais, por exemplo, sente e vive grandes lacunas a vários níveis humanos, essenciais à dignificação da raça humana: o direito ao emprego com um ordenado digno, de forma a suprimir as necessidades mais básicas e outras regalias que qualquer cidadão deveria ter direito. Dentro deste aspecto, o direito à segurança no trabalho, não só em termos pessoais e físicos mas igualmente em termos sociais. Ainda a estabilidade em relação à reforma, é um problema que deixa muito poucos descansados e se tal acontece o cidadão idoso vê-se confrontado com a discriminação existente em relação aos anciãos.
Poderia discorrer páginas e páginas sobre este assunto que nada mudaria na impotência que muitos sentem ao reflectir sobre estes aspectos, mas de facto faz alguma diferença a nossa atitude pessoal em relação a estes aspectos e muitos outros que aqui foram omitidos.
Álvaro Guilherme
segunda-feira, 6 de julho de 2009

Existência crua e vida frígida...
...é o que eu vejo
Quando olho a tua imagem
Reflectida
Numa fugaz vitrina de rua.
Denota-se agora algo maduro,
Uma imponderada ânsia enraizada em ti
E, já nada vejo, daquilo que um dia vi.
Morreu a criança, mas eu perduro...
...até quando,
Um intermédio
Entre nascer e morrer?
Um ser dividido
Entre o prazer e o sofrer.
Até quando?
Álvaro Guilherme
16 Março 1999
domingo, 5 de julho de 2009
Nesse estado de aparente ausência de tudo, como numa caverna refugiado, fico divagando pelo espírito em busca de referências e direcção com uma vontade típica de ir para qualquer lado desconhecido, mas não querendo sair da inércia. Paradoxo labiríntico de mim perdido por tempo indeterminado.
Retendo o meu lamento inaudível, deixo passar os instantes como se estes fossem garantidos e nesta surdez ou cegueira, dou-me conta que tudo se passa dentro do meu querer e vontade doente. Pela disfuncional aberração em que me vejo inserido nesta sociedade devoradora, como para um matadouro, onde entram homens por um lado e saem chouriços por outro, prontos a consumir, perfeitamente descartáveis preferencialmente. Carne para as feras famintas e enjauladas em si, num mundo redondo onde o ponto de partida é o ponto de chegada e o percurso é o nada vazio de sentido.
Com uma sede imensa e utópica fico desmentido de mim e dos sonhos, apenas desperto neste sono global, estado generalizado por uma sobrevivência muda, por opção. Diluído na maré humana dos gestos inconscientes, sinto-me como um espectador inerte na minha cela de estimação, olhando a vida ao largo num imenso oceano de sentimentos e emoções como um barco ao sabor da corrente depois de ter percorrido o meu rio e de me ter desviado do meu estuário, ficando vulnerável às intempéries, sob o céu inalcançável que sou.
Toda a minha fome é de devoção pela fé que me salva de mim mesmo, incrivelmente nas circunstâncias mais adversas. Eu Mestre de mim. Uma devoção controversa por um Deus que desejo conhecer e que mesmo sabendo Estar em tudo, sinto uma vontade plena de revolta sem ódio de Lhe virar o rosto, pela dor sentida que ninguém parece ver, mas apenas Ele. Como se fosse possível ser eu coroa de espinho ou cruz, sabendo que sou ressurreição, menosprezo a eternidade por alguns momentos de satisfação imediata. Como uma musica, pintura ou qualquer outra expressão de arte onde o artista tenta ser poema criador de uma inovação inconsciente, num espaço só seu, perscrutado os sentidos em busca de algo Maior. Com um romantismo religiosamente estúpido fico como uma catedral que guarda umas relíquias velhas e duvidosas como se fossem sagradas, quando nem a catedral ou relíquias vão além da tentativa humana de tocar o intocável e assim ruindo ao sabor de séculos e séculos de uma imaginação iludida por um deus pintado num teto abobadado ou escrito e deturpado por milénios de interesses manipuladores que estão aquém da verdade, não passando de conceitos e impressões de artistas líricos, loucos e excêntricos de solidão.
Querendo ignorar que eu sou o altar de tudo no mundo e que por mais que corra para lado nenhum pensando sem direcção, termino sempre no principio que tudo acaba irremediavelmente em mim. O meu coração é a única voz que pode desmentir esta mentira da mente mentirosa, quando irrompe com uma voracidade corrosiva a querer sentir toda a existência como uma enorme ressaca.
Na tentativa de me salvar de mim mesmo, pergunto-me se estou contente com a vida que tenho? A resposta é sempre a mesma, por entre humildade e gratidão, por entre amor e desamor, apresenta-se sempre latente o desejo de chegar mais além...uma impressão de ser maior do que me deixam ser. Quem? Todos aqueles a quem responsabilizei e culpo por não me deixarem ser Santo entre Santos, no santuário que sei que a vida é.
Não há geração, civilização ou mundo que subsista ao poder renovador do Criador, na sua dádiva. E eu apenas sou uma fonte Sua, tentando saciar uma sede apenas minha...pois tudo que sinto é resultado de uma não-aceitação, do perfeitamente aceitável por natureza. Eu! Se eu conseguisse alcançar a compreensão do incompreensível, se eu conseguisse ir além de mim mesmo e de ser como os meus desejos me impõem que seja. Se eu conseguisse ser “normal”! Assim, mergulhado neste vazio, não aceito o apelo de perscrutar o vácuo dentro de mim e perco a oportunidade, de olhar nos olhos de Deus e apenas ser com Ele quem sou.
Sei que no meu silêncio existe o potencial para a sinfonia mais sublime e que dentro da minha escuridão humana há uma luz que parece eterna, mas o grau de dificuldade em relação ao apelo da vontade de parar e ficar quieto sentindo à beleza de Tudo, dentro de mim, é sempre sondado pela duvida a assombrar as minhas aparentes certezas. Enquanto as incertezas se vão disseminando como uma erva daninha no jardim do meu ser, fazendo com que a vontade se banalize em algo supérfluo, questionável e eu não passe de um Jardineiro que arduamente mantêm todos os jardins que não são seus.
Álvaro Guilherme
05 Julho 2009




