domingo, 5 de julho de 2009



Hoje fui um mar, aparentemente temperamental aos caprichos do vento moderado/forte de Verão. Fui um mar ondulando na superfície de si mesmo, enrolando e encrespando um azul céu que não é azul, mas incolor.
Senti as golfadas das ondas empurradas por uma força que não é sua e lançadas sobre o meu corpo despido, na mesma praia de sempre.
Dentro de mim latente imperava o subtil desejo de lançar a minha luz sobre os homens e ser o Sol, assim como o tempo/medida parece ter governado desde sempre a ilusão nos olhos dos homens.
Então vi, que era apenas o vento a agitar tudo o que via e impelindo tudo ao redor do meu querer. Transparente e invisível, Aquele que tudo toca e permanece intocável, assim como a existência parece limitar a vida na sua condição mortal, senti-me apenas dentro daquilo que existe, como um quadro impressionista da eternidade.
Eu, quinto elemento, reunindo em mim a terra, água, ar e fogo como o universo reúne em si todo o mistério daquilo que não posso entender, mas somente perscrutar, intuir e sentir.
Eu, o brilho espelhado da luz fecunda de um destino desconhecido, sobre um mundo superficial de cores resultantes de um branco alvo, reluzente e luminoso. Com esplendor de aura.

Álvaro Guilherme
04 Julho 2009



Deixo-me para trás
E avanço,
Num espaço que
Não é meu.

Sigo em frente onde jaz
O meu alcance
E com mais um pouco de fé,
Até o céu se me empresta
Por um instante...

Momentaneamente...

Eternamente
A verdade, se eu quiser
Faz-se presente
E a vida entrega-se
Nas palmas das minhas mãos.
Completamente
No meu enlace

Como um fio de cabelo,
Ou o camelo
A passar pelo buraco
Da agulha...

O caminho do meio...

A verdade
Na boca de uma criança,
E a eternidade
No olhar

A acreditar, inocentemente
Na inocência...
A essência do tempo.

Álvaro Guilherme
14 Janeiro 2009


sexta-feira, 3 de julho de 2009





O tempo não tem idade.
O passado, não tem história,
O futuro não existe
E o presente é a única realidade.

quarta-feira, 1 de julho de 2009


Fui sonho antigo
E porto de abrigo,
Fantasia, fetiche e realidade.
Fui busca intensa
E de aparência fui verdade.

Se fui azar ou sorte, não sei.
Mas fui teu amigo!

Fui salvador em ti naufragado
E por mim salvo na hora do perigo.
Mas não sei se fui tudo o que quis,
Nem sei se sei isto que digo.

Fui fluir assim do nada para ti,
Fui sensação resgatada, no que senti.
Mas não sei se deveria, tudo o que fiz,
Nem sei se acredite em quem me diz.

Fui a força maior de ser amado,
Fui aquele que quis ser, o teu maior amigo.
Mas não sei se não serás o meu castigo,
Nem sei se acredite, que me queres fazer feliz...

Álvaro Guilherme
09 Fevereiro 1998




O silêncio
É o princípio
De todas as melodias.


E u sou como o areal, naquela praia,
Feito de pequenos fragmentos de cosmos.
Sou como o vento a ondular nos cabelos,
As pegadas deixadas na areia
Ou as conchas recolhidas pelas mãos...

CONSTELAÇÃO


I

1 Sou o areal de pequenos fragmentos geológicos
2 Como um átomo no cosmos sou constelação mítica
3 Místico do amor a ondular nas folhas de um livro
4 Descobrindo ao vento as pegadas que o mar apaga
5 Descontinuando as conchas, búzios e pedras como tesouros
6 Recolhidas pela união das mãos numa harmonia apática
7 E meus fragmentos dispostos nos céus da imaginação. Constelação...

II

1 ...mas também realizo o centro, o eixo, o circulo e o ciclo
2 E represento a verdade dúbia do ser-se no estado mais natural
3 Dos opostos que em seu extremo se tocam unindo-se e fundindo-se
4 Cumprindo assim a unidade inerente em tudo o que é.
5 Porque tudo é nada sem perder qualquer integridade
6 E a integridade, não é senão algo perpetuo em mutação.

III

1 Sou os céus regozijando pelo magnetismo que a vida é
2 E o amor celebrado nos sexos fundidos em procriação,
3 Mas também a atracção pelo igual, simétrico, inteiro
4 A explorar o corpo físico do outro, em busca de si mesmo
5 Enquanto o ser permanece incomensuravelmente distante,
6 Mentalmente separado da sua génese, mas parte integrante do mesmo.

IV

1 Ás vezes escondo-me em segredos, abismos e buracos negros
2 Querendo conscientemente não reconhecer a consciência que sou,
3 Mas verifico em mim a mesma luz de sempre. Luz que não é luz, mas é...
4 Transparência que separa os paradigmas invisíveis e indivisíveis,
5 Unindo-os na inconsciência sagrada das necessidades do espírito
6 Alianando as fronteiras, pelo que não são, nem nunca foram.
7 Representações de verdades em formas e conceitos, diluídos de si.

V

1 Por isso acabo sempre principiando reunido dentro de mim
2 Á procura da experiência do que já conheço e sou
3 Fingindo uma distancia que não há, manuseando o que fui e serei.
4 Não tenho razões ou pecados como feridas, nem filosofias acerca do que não sei,
5 Mas apenas sei que sou, sinto e existo numa contradição polar da mesma coisa,
6 Celebrando o ritual da escrita indelével a querer permanecer após o homem
7 Aparentemente inconsciente, não reconhecendo que o tempo é diferente, para o poeta e para o poema

VI

1 Por isso sou a imensidão dos grãos de areia no deserto, pelo único oceano que já fui
2 E sou também a aparente indiferença, dos dois reunidos na minha praia de sempre
3 E sou igualmente as pegadas de mim no momento presente, fundidas na areia,
4 E os meus pés são o selo, a lacrar a carta ainda fechada da minha vida.
5 Mas sei que existo. E isso faz uma simbólica e significativa diferença
6 No vácuo das ilusões e das promessas impressas na realidade que invento,
7 Porque dentro do momento sou rei. Senhor de mim e do deus do meu querer.

VII

1 Regresso sempre reencontrado e reconhecendo-me no que não vejo
2 Participante na manifestação da vida, encerrada em si enquanto obriga
3 E vejo que a alegria e a Paz, são realmente o lugar onde eu quero estar
4 E o sentido das coisas sem sentido, deixa de fazer sentido para mim
5 E assim destapo o véu da naturalidade, como quem escreve sobre o que não sabe
6 E assim dessa forma esboça, no etéreo, o rabisco assinando pelo que é eterno,
7 Memória de si instante, na forma de uma palavra chamada tempo...

Álvaro Guilherme
08 Março 2009

INVENTAR UM IRMÃO

Irmão,
Quem é que te abandonou?
Quem te voltou as costas,
Te virou a cara e te fechou as mãos?

Quem foi, meu irmão
Que não te quis ver as lágrimas?
Que te fez secar os olhos?
Porque serras os dentes e choras
Quando te tiram o chão que é teu
E te dizem que não?

Onde está a tua dignidade, irmão?
Quando foi que te deram de comer à raiva
E de beber à dor? Quem te enganou
E te tratou como a um cão abandonado?

Diz-me irmão! Preciso de saber
Quem é que te abandonou!
Deixa-me ver!
Quem é que não te amou?
Quem é que te amou?
Quando foi que a vela se apagou...

Porque é que ninguém te dá razão?
Irás tu, morrer de solidão?

Irmão, quem te fez sangrar a alma?

Vem irmão eu digo contigo não!
Vem, dá-me a tua mão. Acorda!


Lembra-te de despertar
Da anestesia e dor
Que já sabes de cor.
Procura por ti na perseverança
E na coragem dos guerrilheiros,
Nas montanhas mais recônditas
Acerca da lenda da ilha do crocodilo.
E não te deixes morder pela cobra...

Porque, sem coragem
Estarás sempre á margem
E longe dos trilhos
Da justiça e da verdade.


Continua
A tua caminhada irmão
E aprende finalmente,
Caminhando,
A caminhar pelos teus pés
E a pisar o chão que te foi retirado.
Esse sonho mais amado
De liberdade e saudade.

Abandona depois
A outra alma desolada,
Na tua cruz mais amada.
Ressaca tudo de uma vez
E acorda decidido a acordar...

...e depois continua, irmão!
Não fiques como uma pedra
À beira do caminho, letárgica
Ao poente. Deixa a tristeza
E encara de frente o sol nascente.
Deixa-O despertar a vida em ti.

Sim irmão, sê valente e não tenhas medo!
EU SOU! Contigo até ao fim dos tempos.

Lembra-te que a revolta só te é útil
Quando é usada para vencer
E que a raiva só te ajuda
Se tiveres amor no coração.
E o ódio é um cancro malvado,
Maligno, silencioso e amargo,
Difícil de tragar!

Liberta-te de uma vida aparente,
À medida de quem lhe convêm
E repara na tua expressão ausente
Abandonada e embriagada
Do veneno que te quer matar.

Vem aprender o amor
Que sempre procuras-te
Nas ruas da desordem e do medo.

Vem ao encontro do sossego
Onde ele é límpido, doce e ordenado
Como o beijo de uma mãe deve ser.
Sóbrio conselho do coração
De um pai amigo, companheiro e sereno.

Se tu quiseres aprender o amor!
Se tu realmente quiseres
Olhar para ele de frente,
Vais vencer a cobardia
Da coragem amordaçada.

Vem irmão, continua!
Dar-me a tua mão!
Ergue o teu coração doce
E agarra o que te faz feliz!

Amo-te.

· Dedico este poema ao povo de Timor e a todos os alcoólicos que sofrem.



Álvaro Guilherme
12 Setembro 1999


"A DIFERENÇA ENTRE UMA PESSOA E UM ANJO
É SIMPLES. A MAIOR PARTE DO ANJO
ESTÁ POR DENTRO E A MAIOR PARTE
DA PESSOA ESTÁ POR FORA."


A verdadeira alquimia

É saber extrair

O que cada um tem de melhor.